Há momentos em que um olhar é mágico
A noite estava serena e estrelas cintilantes e pequenas brilhavam no céu escuro daquela noite, que segundo o que ele pensava, seria extremamente aborrecida. Sentiu-se na obrigação de ir, àquilo que o pai denominara de ‘noite em família’. Contrariado e com a cabeça mergulhada no seu mundo confuso e preocupado, seguiu atentamente o andar da sua resplandecente irmã, que caminhava à sua frente e que cujo caminhar, era a seu ver, elegante e confiante.
Longos minutos de espera se seguiram, a fila para entrar no grandioso teatro era descomunal, carregada de numerosas pessoas vistosas e emproadas. O teatro de renome e etiqueta oferecia àquela hora da noite um espetáculo repleto de beleza e delicadeza, onde fantásticas bailarinas se moviam ao som de Mozart, Beethoven, Tchaikovsky ou até mesmo Debussy.
A primeira fila de cadeiras era assustadora e o palco mesmo à sua dianteira proporcionava um observar bruto e com alguma sorte, um torcicolo de pelo menos dois dias. Não podia renegar ao desejo da sua queridíssima mãe de se sentarem naqueles lugares que permitiam uma visão aberta do soberbo palco de madeira luzidia e que, obrigava a um constante mover de pescoço aquando este aderia ao brandir dos corpos magricelas, daqueles maravilhosos seres que, por vezes, pareciam voar.
Perdido nos seus pensamentos irrequietos e teimosos, nem dera pela crescente presença de estreitas saltadoras vestidas de um manto branco, que continham adornos de cabelo que se iluminavam intensamente. A música de ritmo lento e suave fluía alegremente e o seu efeito provinha da graciosidade de seis raparigas franzinas que pulavam e finalizavam o movimento com majestosos pliés. E, um suspiro pesado e maçador silvou pelo ar, a melodia facultava uma sensação de ficar com sono, dando instruções precisas ao cérebro de fechar os olhos. Inconscientemente revigorou-se na macia cadeira e sentiu o pescoço tombar lentamente, no entanto, lutou e esforçou-se por se manter minimamente apresentável e, de preferência, com os olhos abertos.
Após longos minutos, que na sua imaginação tiveram uma ligeira comparação a horas, um sentimento de ansiedade brotava sobre a sua pele quente, não tardaria e o espetáculo tão pomposo chegaria ao fim. Uma impaciência prosperou, tornando o seu corpo frenético. E, quando parecia não existir mais espaço para tamanha agitação no seu físico atlético, todo o ruído da grande sala se calou, assim como toda a luz se apagou. Nos segundos seguintes ressoaram alguns tossires e gemidos fortes e a sala inteira se remexeu nas cadeiras, esperando ansiosamente por aquilo, que no final de contas vieram ver.
As cortinas vermelhas voltaram a abrir-se, a luz voltou, embora ténue e o ruído era agora sublime e cativante. No palco encontrava-se uma irreal figura feminina envergando um estonteante vestido azul que lhe cobria as compridas pernas e que dançava com as batidas harmoniosas da melodia, acompanhando todos os movimentos atrativos e belos da rapariga.
Foi nesse instante que a viu e admirou, sem que se apercebe-se ela prendeu-lhe o olhar, encantou-o e seduziu-o sem que ele desse conta. A sua dança cativava-o constantemente, amarrando-o à cadeira, sem que conseguisse desviar o olhar uma única vez. A cada salto que dava, a miúda dava a entender que possuía asas, de tão magníficas que eram as suas elevações celestes. A música tornava-a ainda mais distante deste universo, auxiliando os seus movimentos e passos de dança exatos, adicionando ao seu bailando sentimentos que se transmitiam para o embasbacado público.
Atormentado, ambicionava que o tempo parasse para que pudesse observá-la calmamente, analisando cada detalhe seu, estudando cada expressão sua. Mas irritado com essa impossibilidade, contentava-se em olhá-la simplesmente, os seus longos cabelos loiros oscilavam e a sua expressão alterava-se por momentos, revelando a mensagem que a peça musical objetivara. Os seus olhos pretos e grandes pareciam encará-lo de tempos-a-tempos, aprisionando-o ainda mais à sua imagem e presença. Na sua cabeça, nunca existira um ser tão fascinante como ela, que apreendia qualquer olhar só com um simples mover de braços e com um sorriso tímido e branco que causava um arrepiar na espinha.
Entretanto, a música convertia-se em batidas mais fortes e sonoras, anunciado rapidamente um fim de tão deslumbrante atuação. Soubera então, que seriam os últimos instantes em que poderia contemplá-la e uma sede de aproveitar todos, mas todos os segundos surgiu. Cravou o seu olhar mais afincadamente, sentindo-se ficar abismado com certas habilidades que ela possuía. Não esperando que tal bailarina se aproxima-se dos limites do palco, eis que algo extraordinário aconteceu. Ao fim, de um ritmo sinistro e dramático, o corpo elegante e frágil cai mesmo à sua frente, escondendo a cara entre os finos e musculados braços, que se deparavam agora no chão, ao mesmo nível que as pernas. A melodia tornou-se mais leve e houve uma explosão de compassos alegres que possibilitaram à rapariga renascer. O seu esplêndido cabelo loiro expandiu-se favorecido pelo seu levantar ilustre da cabeça, o seu corpo balançava levemente e sentada sobre si própria, agitava os braços, fazendo admiráveis movimentos no ar. Enquanto isto se passava, ela dera também pela presença dele, defrontando-o igualmente e conquistando-o com um nervoso mirar. Rendida ao seu olhar, viu-se coagida a manter os seus olhos nos seus. Tal expressão pasmada a surpreendeu, dominando-a e acabando por sorrir, mesmo que não fosse essa a sua vontade.
Se o mundo tivesse parado, notar-se-ia a cumplicidade e desejo crescente entre os dois, tais olhares eram ávidos um pelo outro, que era impossível não se aliciarem. Ambos sabiam que, depressa se separariam para sempre, aquele olhar mágico entre os dois desvaneceria eternamente.
Um estrondoso som de jambé fez-se suar e ela soube assim, que era hora de partir, continuar a sua dança, percorrendo o palco até ao fim com imponentes saltos em pontas dos pés, terminando com um apoio duplo. Levantando-se forçadamente, manteve o seu olhar no dele mais uma vez e sorriu, despedindo-se com uma aprimorada vénia e voltou-se executando na perfeição a sua atuação.
Dentro dele, havia uma satisfação. Ela, não só o vira, como também lhe sorrira, contudo, um sentimento de pena deambulava. Ele, tal como ela, pressentira que nunca mais se iriam ver, que aquele momento perduraria guardado nas suas memórias e que, aquele olhar mágico o cativara como nunca ninguém cativara.
O teatro estava novamente às escuras, ficando a vê-la desaparecer no imenso palco. Bufou entristecido e colocando-se de pé rapidamente, aplaudiu-a sonoramente como todos os restantes elementos presentes naquela sala.
Depois que ela se evaporara por detrás daquele grande cortinado, ele percebeu a razão daquele momento de êxtase segundos antes de a ver pela primeira vez.
Nunca mais a viu, mas a magia contida naquele olhar reproduzia-se consideravelmente na sua mente, tornando o momento único e inexplicável. E portanto sim, há momentos em que um olhar é mágico.
(sc)